Correio do Povo, 14/08/2010
É um importado, conversível, último tipo. Estaciona mais ou menos onde o policial indica. Mais ou menos. Na verdade, alguns metros adiante, e depois de uma dúzia de apitos. Quase derruba um par de cones. O policial, desconfiado, vai até o carro.
A moça abre o vidro e o encara. Faz um gesto exagerado de espanto. Explica, achou que poderia passar reto. Sabe? Está com pressa. E está tudo certinho com o carro. Tudo. E pergunta, num sussurro miado, posso passar reto?
Recebe uma ordem calma para que fique onde está. O policial pede documentos. Ela faz que não ouve, solta um grunhido, encara o próprio rosto no retrovisor, joga os cabelos para um lado e para o outro. Mostra pescoço, orelha, brincos. Como? Aquilo não vem numa voz. Vem num sopro, num chiado de chaleira pronta para virar mate. O cabelo repete o bailado mais duas ou três vezes. A boca num sorriso enviesado, de ditongo semiaberto. Ele apenas repete o que já havia dito. Documento do veículo e habilitação, por favor.
Ela estica o dedo como se fosse uma coreografia e toca os óculos escuros na ponta do nariz. Sorri. Pisca o olho. Ele parece nem perceber, concentrado no seu bloco de anotações. Ela leva a mão à blusa, que na verdade é miniblusa, e abre o primeiro botão. Calor, né?, murmura. De olho nele. Que não está nem aí.
A senhora precisa calibrar seus pneus, ele avisa. Ela concorda, sem graça. O policial quer saber se já encontrou os documentos. A mulher morde os lábios. Finge procurar na bolsa, no console, no porta-luvas. Nada. Diz que vai espiar no porta-malas. Abre a porta do carro lentamente. Fica de lado, avisando, ó, vou descer. Estica o movimento de pernas ao máximo. Está de minissaia. Não. Microssaia.
O policial a encara. Diz que vai aproveitar para conferir os equipamentos obrigatórios. Ela respira fundo. Está ficando furiosa, mas se mantém. Abre o porta-malas exatamente em frente ao policial e se curva exageradamente. Pernas esticadas. Agora ele não vai resistir. Nécas. O sujeito apenas anota coisas num bloquinho. Desiste, se recompõe e se aproxima. Meio palmo de distância. Ou menos. Quer que o perfume inunde o policial. Leva a mão à cintura, faz cara de desconsolada. Ai, seu guarda, o senhor não vai me multar, né? Ele pergunta dos documentos. Ela joga a cabeça para o lado, faz beicinho. Não, mia, piscando os olhos azuis. Ele dá de ombros. Então, infelizmente, é multa. E guincho.
Ela esperneia, berra, chora, sapateia. Chama o policial de tudo. Coloca em dúvida sua masculinidade. Alega parentes importantes, ele não perde por esperar. Acaba assinando ocorrência de desacato além das multas.
Minutos depois, um táxi leva a moça. Com sua minissaia. E miniblusa.
O policial fica ali onde estava. Olha o asfalto, os cones, o céu azul como os olhos dela. E o relógio. Falta pouco. Ainda bem, suspira.
Que, se vier outra assim, sei não. Sei não.

1 comentários:
Aonde isso?????????
Não por aqui....
Bem certinho...
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