Correio do Povo, 17/07/2010
Recebi inúmeros e-mails de leitores em apoio à luta contra a maconha. Médicos, professores, policiais, cidadãos. Unânimes: se quisermos dias melhores para nossos filhos, é dizer não a qualquer droga. Nada de liberar, tolerar, legalizar. Se dermos mais espaço, perdemos até a chance de recuperar o que já perdemos. Estranhei os defensores da erva nem se manifestaram. Talvez porque ler exija muito do cérebro.
Há outra droga a ser combatida, com todas as nossas forças. Uma droga-mãe. Ou avó, diz a história. Epidêmica, degrada e dilacera comunidades inteiras e atinge famílias indiscriminadamente. Em pequenos ou grandes centros. Vicia rápido, fascina, seduz, alicia. E mata tanto direta quanto indiretamente. Mais indiretamente, pensando bem. Há quem tente se recuperar, mas o problema são as recaídas. Volta e meia um arrependido é pego com ela. E a Polícia Federal tem imensa dificuldade em combater, pois gera tráfico inigualável e, nalguns lugares, até intervenção de poderes. Conhecem? É a tal corrupção. Mata mais que o crack.
Exemplo? As redes de proteção têm sido temas de sucessivos encontros e debates. O óbvio, que é os setores públicos trabalharem juntos - por isso são públicos, atuando em causa única -, parece um milagre a ser alcançado. Trabalho hercúleo. Isto porque a inexistência efetiva dessas redes não esbarra somente na má vontade, ou vaidade, de um ou outro agente público. Tranca, principalmente, na falta de estrutura. Que vem do desinteresse. Das prioridades do administrador. Saúde capenga, educação desvalorizada, cultura como alegoria e a segurança pública sem conseguir ficar sequer entre as dez prioridades elencadas pelos prefeitos. É. Bem assim. Porque se quer assim.
Certas ações não rendem. Inclusão efetiva é boa em discurso. E investir nas redes de proteção ao idoso, à criança, ao adolescente e às mulheres vítimas de violência não é como trecho de asfalto, que dá churrascada e banda de música. Fora a gorjeta. Dá para ver, não somos um país pobre. Pobres são os gestores. Que o ensino da corrupção é implacável: vem na cola da prova, no trabalho escolar plagiado da internet, no pai que intercede contra a sanção do filho aplicada pelo professor, no jeitinho que quer negociar multa de trânsito com o policial. Aí, fiscalização revolta, porque responsabiliza. E o correto é chato. Até chegar num ponto em que não se consegue respirar sem enganar alguém. Nem que seja a si mesmo.
Seria interessante tornar inelegível todo administrador que não construir ou efetivar, de fato, as redes de proteção. Cujas ações não garantam plena cidadania. Na ameaça de perder a mamata, muita pedra vai se mexer. Podem apostar. Então teremos chance contra a violência e as demais drogas. Do contrário, é enxugar gelo. Enquanto a tal corrupção segue viciando espertos. E nos matando.

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