Jornal Ibiá, 05/08/2010.
Confesso, sempre tive mais simpatia pelo inverno. Mas nossas relações andam estremecidas. Tudo tem limite. Nos últimos dias, ando me sentindo um baiano na Sibéria. Que frio é esse? E o aquecimento global, onde foi parar? Ando pensando em processar a comunidade científica. A moça da previsão do tempo. Ou São Pedro. Sei lá. Alguém vai ter que pagar pelo meu excessivo consumo de lenços de papel. E o quente mesmo é processar. Onde não há argumento, toft!, tome processo. Depois do assalto e das licitações extraterrenas, é a forma mais fácil de tentar descolar algum. É isso, vamos processar o frio. E ainda tirar uns dois minutos dele na propaganda eleitoral.
Dia desses, acordei após sonhar que não tinha mais pés. Haviam sido devorados por uma dupla de pinguins canibais, que se penduravam em minhas canelas e guardavam meus ossos entre bolas de sorvete. De baunilha. Ainda bem que era pesadelo, pinguins com baunilha. Mas meus ossos entre bolas de sorvete ainda parecia real. Minhas meias – duas, e grossas - praticamente inexistiam em termos de sensação térmica. Soterrado entre cobertores e sem a mínima vontade de ressuscitar, espiei o relógio. Atrasado, já. Nessas horas penso que o mundo deveria começar mais tarde no inverno. Por lei. Com feriadão regulado pelo termômetro, para hibernarmos cada vez que o ar parecesse disposto a quebrar o nariz da gente.
Enfim, o ser humano se adapta. Problema é coragem para um banho. O medo de ficar despido – e se despir, no inverno, é mais complexo e trabalhoso que descascar abacaxi, num rito de camadas - e ainda encarar a água. De, depois que se entra numa ducha bem quente, dá até medo de sair. Nessa hora a gente pensa nos franceses - onde um, a cada três, visita o chuveiro no máximo uma vez por semana. E olhe lá. Porém, afora os prejuízos no olfato coletivo, não deve ser de todo mau. Mesmo não sendo muito fãs da higiene, nós nos tornamos seus fãs. Só eles têm o champanhe, a cabeçada do Zidane e os filósofos iluministas. Fora as dançarinas de cancã da Belle Époque – embora, creio, não fosse algo muito perfumado ficar horas trancado num cabaret daqueles.
Enfim, sobreviver ao banho, num dia desses, fortalece qualquer fé. Dá para encarar o frio sem pala, sopão, chocolate quente ou chimarrão com paçoquinha. Tudo é possível. Até passar pelo São Paulo, outra vez. E no Morumbi.

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