domingo, 29 de agosto de 2010

Gardenal

Correio do Povo, 24/07/2010


Tenho um amigo que se intitula inquisidor. Descende de Torquemada, Ximenes, Garrastazu, aquela turma. É o que ele diz. E de Cornélius, o Último a Saber, imperador sei lá de onde e muito menos quando. Algum carnaval, presumo. Mas nem questiono. Cornélius é um sujeito amargo. Fica nos fundos de casa, ali pelos campos de Vapor Velho, sentado, fitando seu fogo de chão. Volta e meia atiça a brasa, esquenta o mate, assa uma costela, joga às chamas o borrachudo que lhe pousou no cangote ou umas perguntas sobre essa vida. Tem por passatempo ruminar culpados sobre isso daí. É como define o mundo: isso daí. Queria jogá-los na fogueira, todos. Cumprir sua missão divina. Pobre Cornélius. Quase o odeio. É que, me entendam, ele tem internet banda larga. E água de vertente. Maravilhas.

Foi ele quem me chamou a atenção para a foto no Correio de quinta. Tragédia na BR-116. Um caminhão carregado de arroz vem a mil, não segura os freios, toca por cima de todo mundo, destrói quinze veículos e manda gente para o hospital. Cena de filme, disse quem viu. Imagino. E de terror. Se bem que antipatizo com o cinema americano, onde seres humanos e carros são derrubados em série, feito garrafas de boliche. Não me parece recomendável ao nosso já dinamitado cérebro. Cornélius me apontou o adesivo do caminhão. Gardenal. Assim, bem grande, no vidro dianteiro. Tá explicado, ele disse. Pedi que parasse de brincadeira. Humor negro não é comigo, sou politicamente correto. Tá, exceto em grenal e assistindo Ídolos. Mas ele parecia sério. E me deixou pensativo.

Nem sei se era, de fato, o vidro do causador da carambola. Porém, ou há motoristas dopados demais, ou precisam de calmante. Urgente. Que lei, campanha, multa e o escambau não remedia. Num trecho de estrada como aquele, por exemplo, correr não pode ser um ato de lucidez humana. Aliás, em qualquer via de trânsito, não medir o peso do pé no acelerador já reflete uma inconsciência total. É assumir o risco de provocar uma tragédia. O que deixa de ser um mero acidente, por definição. Passa a quase proposital.

Claro, cada caso é um caso, e nem se quer acusar o caminhoneiro da BR 116. Vai que ele passou mal. Mas está comum demais a irresponsabilidade despreocupada com a vida. Entra aí, também, uma necessidade de consciência dos responsáveis pelos transportes. Prazo é prazo, mas deve haver segurança, não apenas pressa. Que o trânsito é fácil. Simples. Basta ter calma e respeitar o outro. Entretanto, terminamos todo final de semana chorando mortos nas estradas. Vendo marmanjos desocupados fazer racha e matar inocentes. É educação, consciência, cultura. Cornélius tem lá suas razões. Isso daí, assim, não dá mais. Nem com gardenal.

0 comentários: