domingo, 29 de agosto de 2010

Informação

Correio do Povo, 21/08/2010

É de repente. A mulher brota da multidão, entre artesanatos, pôsteres do Inter e santinhos de todos os partidos. Olha na direção dele. Vai atravessar a rua, sacolas e filhos pendurados pelas mãos. Ele percebe. Ai, meu deus! Agora, que precisava de uma jamanta trancando o trânsito, não passa nem bicicleta na contramão. Ela vem. Impávida, absoluta, decidida. Ai, meu deus, ai meu deus!


- Ô moço!

Pensa em se esconder, virar homem invisível. Ser abduzido. Correr atrás de um vira-lata suspeito e algemá-lo por desacato. Ô moço!, ela insiste. Finge que não é com ele. Vira para o outro lado. Para o alto. Disfarça, assovia, franze o cenho. Ela vai desistir, pensa. Que nada. Ô moço!, ela grita. E lhe puxa o braço. Aí deu. Não pode mais fugir, muito menos ignorar. Nem dizer que talvez não possa dizer nada.

- Onde fica a farmácia do Bilu?

Faz uma cara de "hein?", para ganhar tempo. Ver se ela desiste. A farmácia do Bilu, moço. Onde é que fica? Ele respira fundo. Tem vontade de dizer que não é guia turístico. É policial. E tão estrangeiro quanto ela. Recém chegou, caiu no centro e...

- Bilu. Bi-lu!

Ela repete, como se não tivesse ouvido. Boa. Poderia fingir de surdo. Não. Arriscado demais. Vai que, bem na hora, passa o comandante. E chama.

- Bilu? – ele repete, coçando o queixo, como se só agora tivesse compreendido. A mulher permanece imóvel, olhos estalados, vinte e nove sacolas e quatro crianças. A farmácia. Ela quer saber da farmácia do Bilu.

O policial pensa numa saída. Poderia ser honesto, explicar que veio do interior há pouco, conhece nada. Mas ninguém quer ouvir PM dizer que não sabe. Poderia buscar ajuda, mas só vê um menino sentado no cordão da calçada. Nem aí. A terceira opção era buscar mais pistas e fingir lembrar algo, ou desviar de vez o assunto. O Bilu? Da novela? Não, o da novela não é Bilu, mas aí era fofocar sobre quem vai ganhar o Ídolos, esse tempo que não firma e deu. Encerrava sem ter respondido nada. E se ela pergunta outra vez? Pois é. Melhor seguir a pior das alternativas.

- Bilu? Claro. É por ali, senhora.

Aponta o horizonte. Vai mentir. Descaradamente, escandalosamente, desesperadamente. Ainda diz, segue aqui, dobra na segunda à direita, depois terceira à esquerda, atravessa, mais umas onze quadras e tá lá. No Bilu. A mulher agradece, sorri, vira nos calcanhares e sai. Sacudindo crianças e sacolas. Os pequenos olham para trás e ainda abanam. Retribui. "Tomara que encontrem", ele pensa, sentindo-se culpado.

Respira fundo. Vê que o menino, na calçada, o encara, ar de riso. Pergunta o que houve. Vê o gesto que aponta com o nariz e olha para trás. Pensa num ataque. Ninguém. Só uma placa. E enorme.

Farmácia do Bilu.

Ai, meu deus, ai meu deus!

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