Correio do Povo, 31/07/2010.
Dia desses, recebi um senhor que desejava prestar queixa. Mau atendimento, ele dizia. Tudo bem. Policiais são humanos e erram. É dever do cidadão reclamar, caso se sinta prejudicado. Meu visitante, porém, queria justamente o contrário. Havia estacionado seu carro em local proibido. Sinalizado por placa, faixa amarela, tudo, admitia. Próximo dele, uma viatura. Certo. O policial veio, o abordou educadamente e autuou pela infração de trânsito. Fim. Entendi patavinas. Até que ele explicou, na verdade, entendia que o dever do policial seria só orientar. Advertir. Mesmo que a orientação já tenha sido dada pela sinalização da via, pelo curso de formação de condutores, pela legislação que não prevê este tipo de atitude. Aliás, que coloca o policial no dever de agir, ou ser indiciado por prevaricação. Eis sua queixa: o policial cumpriu a lei. Não deveria. Correto seria dar as costas, deixar assim. Que agisse com os outros. Tá, ele disse, lei é lei, mas não precisa ser tão lei assim. Pasmem: ele é bacharel em direito.
Depois de ter tomado um carteiraço de um rapaz, ano passado, dizendo que, se eu tomasse alguma providência, ele me entregaria para o seu amigo capitão da cidade – que era eu mesmo e, lógico, nem o conhecia – esta foi a campeã. Mas faz parte da rotina policial. Verificação, sanções e rigor são quesitos que até admiramos, mas para os outros. E só. E, mesmo que nos digamos combatentes da impunidade, não gostamos que a polícia nos fiscalize. Nós? Nunca.
Para o profissional de polícia, mesmo um acerto pode gerar reclamação. Erros, mais ainda, daí com razão. Como no estranho episódio envolvendo a morte do filho da atriz, no Rio. Se for confirmada não só a omissão, mas a corrupção, é imperdoável. Tenebroso. Inaceitável. Agora, é fato: um policial caminha a todo instante sobre o fio de uma espada. Um mínimo engano e passa de herói a bandido. Como no filme do italiano Sergio Leone. O Bom, o Mau e o Feio. Todos trazem, em si, heróis ou bandidos. São humanos. Apenas têm seus objetivos. Um policial é meio assim. Pode, ao mesmo tempo, ser bom para um, mau para outro, feio para quem não deseja vê-lo. Mas é necessário. Igual luz elétrica - só se sabe a importância quando falta. E, embora erros aconteçam todos os dias, não é justo afirmar que a polícia brasileira é simplesmente feia ou má. Ela é feita de uma maioria de bons sujeitos, que se arriscam todos os dias, que acertam, que salvam. Muitas vezes sem conseguir salvar a si próprios. E seguem anônimos. A grande maioria. Enfim, como no filme de quase meio século atrás, a realidade não é muito bonita. Tampouco totalmente feia. É realidade. E nada mais.

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