Jornal Ibiá, 23/07/2010
Imagine um fofoqueiro sem assunto. Não dá. Mais fácil o goleiro Bruno admitir seus crimes, ou o Congresso brasileiro trabalhar de verdade. Surreal. Eles sabem de tudo, os fofoqueiros. Sempre têm algo a nos contar. Confiam na gente. É um privilégio quando eles baixam o tom de voz, olham para os lados como espiões da CIA em Havana e, num ato de extrema benevolência, nos contam o que sabem. Só para nós. E para a torcida do Flamengo, mas o importante é que fomos os primeiros a saber. De tudo. Que eles detêm os segredos mais importantes, os detalhes mais sórdidos, testemunharam o que ninguém mais viu. Graças aos fofoqueiros, há outras verdades. Dezenas, centenas, milhares delas. Até as que nem eles mais sabem dizer, exatamente, se é verdadeira. Depende do momento. Do assunto. Da previsão do tempo ou do preço da costela. Enfim, o importante é que deve ser dito. E já.
Não tenho nada contra os fofoqueiros. Até porque todos têm um fofoqueiro dentro de si. No bom sentido, claro. Gostamos de discorrer sobre a vida alheia. Assim, sem maldade, só para ajudar. Que falar sobre a nossa vida, convenhamos, não tem graça nenhuma. Sobre esta, melhor ficar calado, igual bandido em delegacia. Vai que aparece algum podre. Interessante é o do outro. Embora eu tenha um amigo que, na falta de ter sobre quem fofocar, parou na frente do espelho e começou a falar mal de si para si mesmo. Pobre coitado. O que é o ser humano sem uma fofoquinha. Agora, se por acaso dermos a impressão de que há alguma inveja, ironia ou rancor no que falamos, pedimos desculpas. Nada a ver. Não é fofoca, assim, fofoooca. É só um comentário, tá. Inocente.
Há um problema: como o nosso fofoqueiro interior se manifesta. O fofoqueiro do bem, que sempre espalha o de melhor sobre seu alvo, é injustamente acusado de puxa-saco. Só por sua espécie surgir com intensidade em anos eleitorais. Já o dito do mal - outra grande injustiça - é um generoso prestador de serviço. Quase oftalmologista. Aperfeiçoa nossa visão, mostra como não presta quem achávamos decente, ou honesto, e o quanto ainda pode ser pior quem já desconfiávamos não prestar. Os fofoqueiros são visionários. Guerreiros contra a mesmice, baluartes da transparência. Ainda que só a alheia. São os caras. Sem os fofoqueiros, a nossa vida seria só a nossa vida. E isto talvez ficasse muito sem graça.

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