Correio do Povo, 07/08/2010
Dia atrás o meu filho, de oito anos, veio com essa. O Gê. Queria ser policial. Gelei. Uma semana antes, havia me lesionado – alguém conseguiu esmagar meus dedos numa incursão policial – e levantei as mãos para o céu pelo fato de não ter tomado um tiro na cabeça. Nada de novo, para quem está nas ruas. Policiais morrem todos os dias na linha de frente. Ou quase morrem. Faz parte. Mas fiquei pensativo. Em Porto Alegre, há muitos anos, uma arma só não conseguiu o objetivo de quem a empunhava talvez por ser muito velha. Ou por não ser a minha hora. Em Alvorada, um amigo morreu após tentarmos, o dia todo, a captura do tarado que atacava crianças numa escola. Com um tiro bobo, disparado por um ladrão de meia dúzia de trocados. Que nem levou o que pretendia. Enfim, coisas da vida. Da vida policial. Que a gente se acostuma e gosta. Mas não quer, nem de perto, ver filho da gente metido numa dessas.
Uma amiga escritora, de Portugal, diz que o brasileiro que encara uma carreira dessas no Brasil não deve bater muito bem. Pelas notícias que chegam lá. Enfim. Alguém tem que fazer este papel. Alguém precisa dar um jeito na bagunça social semeada irresponsável e lucrativamente. Que ser policial é meio assim. Ser clínico geral. Ou faxineiro. Quem varre para debaixo do tapete, ou para dentro das cadeias, o lado feio de um país historicamente vilipendiado. Transformado numa fábrica de miséria, exclusão e ausência de valores e humanidades. Que trata a violência como uma nova seca do nordeste – o maior nascedouro (e morredouro) de verbas lá nos anos da dita cuja. Um país que tenta se resgatar. Que engatinha e quer sorrir ao seu futuro. E ainda reconhecerá o real valor de quem deixa seus filhos, entre preces aflitas, todos os dias e noites, para cuidar dos filhos de todos.
A coluna, neste domingo especial, quer apenas render uma homenagem. Aos pais que são heróis verdadeiros, carne e osso, anônimos, sem capa, espada, poderes especiais ou armas de alta tecnologia, na maioria das vezes sem close das câmeras ou qualquer reconhecimento. Que não se vendem e nem se deixam seduzir pelo que parece mais fácil. Que são honestos, íntegros e olham suas crianças com orgulho de quem nada deve a ninguém. Mesmo sabendo que tudo poderia ser bem melhor. Aos filhos dos milhares de pais que não voltaram para casa, que tombaram no cumprimento do dever ante algum louco, drogado, corrupto, marido enciumado, ladrão de galinha ou de carro-forte. Aos que ficam todo dia em casa na expectativa do próximo passeio, do próximo abraço, do próximo futebol, mas sem certeza alguma, pois o pai embarcou numa viatura e não se sabe se ele volta. Tudo bem. Sigam o exemplo dos seus pais. Tá, e se quiserem ser policiais também, só saibam que a situação vai se inverter. E esse pai é quem ficará com o coração na mão. Mas cheio de orgulho. E o Brasil precisa mesmo, cada vez, mais de heróis. E de pais de verdade.

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