terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Cigarrinha, a Vespa e outros Insetos

Correio do Povo, domingo, 05/09/2010.

A sorte de La Fontaine foi ter vivido no século XVII. Quisesse publicar suas fábulas hoje, estaria falido. Teria que a apelar para a autoajuda, ou biografias eróticas de criaturas sem biografia ou livro de receitas repetidas. Seu principal problema seria escolher um inseto que retratasse a insólita condição humana atual. O louva-a-deus, quem sabe. Um retrato do desespero. Só rezando. Ou o inseto descoberto pelos cientistas da Unicamp, parente da cigarrinha, que engana e usa formigas selvagens como tropa de choque para se proteger. Só na maciota. Brasileiro, claro. Engana e explora em nome da segurança. De onde mais seria?
Parodiando a nova lei, é bom não deixar seu filho cair da cadeirinha. O mundo é assim mesmo. Melhor se acostumar. Estão enviando celulares para dentro do presídio com arco e flecha. Coisas da evolução. Ou devolução, vá saber. A próxima tentativa de fuga em massa será através de catapultas. Já avisaram. Onde já teve falange dona do pedaço, nada surpreende. Por falar em retrocesso, o STF finalmente liberou a liberdade de expressão. Uau. Somos sortudos. Podemos até fazer piada política. O que quer dizer que temos democracia, ou algo parecido. É bom fazer propaganda disso. Hein? Tá, deixemos o marketing de lado. Pode quebrar nosso banco. Ou a nossa cadeirinha. Melhor não arriscar.
Voltemos a conversar sobre drogas. Mais saudável. Esta semana, a Brigada encontrou crianças sozinhas em casa, abandonadas pela mãe, em meio a crack e cocaína. Medonho. As novas gerações estão sendo condenadas sem chance de defesa. Igual aos peixes de Canoas, à baleia de Capão ou aos imigrantes no México. Não dá nem tempo de se defender. Culpa nossa. Sabemos do mal, das mortes, mas ainda o alimentamos. Exemplo? As músicas do rapper T.I., condenado a pagar 10 mil dólares por posse de drogas. Venderão ainda mais, agora. Grande coisa, dez mil, ele vai dizer. É quantia para desesperar professor, policial, operário. Não astro drogado ou traficante. Daremos muito mais dólares a ele. E doses. Neste caso, a tentativa de censura nem aparece. Sujeitos que gravam músicas estimulando o uso de drogas, bebidas em excesso, que tratam as meninas (ninfetinhas, ninfetinhas!) como lixo e apóiam todo tipo de loucura, ah, esses estão liberados. Não fazem mal ao futuro, mesmo o destruindo. Com veneno de vespa-mandarina. Piada política em ano eleitoral que é crime. Isto não. Ainda bem que o STF nos salvou. Viva o STF. Que a Constituição, tadinha, não se sustenta. Nem na cadeirinha. Fragilidade de inseto? Pobre La Fontaine.

1 comentários:

Nana disse...

sempre é um prazer entrar em contato com tuas letras...abraçao