Jornal Correio do Povo, domingo, 16/01/2011.
Cornelius, o Inquisidor, sujeito que se diz descendente de torturadores como Torquemada, Pinochet e a vocalista da banda Calypso, me escreveu indignado. A ideia do Secretário Nacional de Políticas Antidrogas é liberar os pequenos traficantes. Vender pedra, pó, erva, se for apenas para os parceiros – talvez para crianças de uma escola só, ou de poucas famílias no bairro -, não será crime. Segue as ideias de FHC. Interessante. A liberdade é boa quando é geral. Ainda mais quando investimos tanto na educação. De base, claro. De valores. E formamos consciências plenas. Cidadãos que não se deixam levar pelo consumismo ou pelos maus exemplos, eis nossa realidade. Somos tops em inteligência. Temos Tiririca no Congresso e agora Ronaldinho no Flamengo. Nem temos a impunidade como um câncer. Muito menos a corrupção. Mas Cornelius quer jogar o homem na fogueira. Diz que não dá, liberar o varejo é oferecer carta branca ao mercado explorado pelos tubarões do tráfico, que abastecem os pequenos. É liberar a violência e a pressão que massacra o cotidiano de comunidades de periferia – não as da TV, no Rio, onde impera a lei do fuzil e da mafiosa relação de peso com as forças públicas, mas as de 98% dos municípios brasileiros. Que não conseguem dormir em paz, que não podem deixar roupas no varal, que não se permitem uma janela sem grade e nem os filhos jogando bola na rua. Nem tudo é Tropa de Elite um ou dois. Há outras lamas. Igualmente sufocantes e de cheiro muito ruim para se pisar.
Sujeito interessante, este Cornelius. Meu mais novo seguidor no twitter. “Anti não quer dizer contra?”, esbraveja meu leitor. Chegou a sugerir que, para esvaziar presídios, melhor seria incrementar a escola. A educação. A perspectiva de futuro. Que absurdo. Isto é muito complexo penoso e caro, caro amigo. Ele encerrou o e-mail me perguntando como ficam os demais crimes, se a onda pega. Homicídio, por exemplo. Pequeno assassinato também não será punido? E o que se enquadra nesta categoria? O tamanho da vítima? Opa. Tenho que me cuidar. Os anões, então, nem se fala. E o estupro? Melhor nem comentar. Tomara que este raciocínio não leve a pensar que uma pequena polícia é suficiente.
Deixei de lado meu polêmico leitor e fui ler Juremir Machado da Silva. Dos malditos, fico com o melhor. Dica: nas férias, leia História Regional da Infâmia. Mas, se ler Juremir, não dirija. Não entre na água. Nem fique muito perto da sogra. Aprecie o raciocínio crítico com moderação. Provoca enxaqueca, irritabilidade ou riso fácil. Depende da hora e do local de uso. E não esqueça que inteligência é droga que jamais será liberada assim, totalmente. É, ainda, crime hediondo.
1 comentários:
Realmente, ao invés de estruturar melhor a legislação penal e a estrutura do sistema penitenciário, executivos e legisladores brasileiros optam por deixar de prender criminosos.
E os cidadãos de bem que se prendam em suas casas, ou que engrossem a legião de bandidos, já que as próprias autoridades chancelam condutas criminosas.
Um abraço e parabéns pelo blog
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